Moçambique atingiu 532.761 pontos de acesso a serviços financeiros no segundo trimestre de 2026, mais do dobro do registado em 2021, impulsionado principalmente pela expansão dos agentes das Instituições de Moeda Electrónica (IME). Apesar deste crescimento histórico, a distribuição continua fortemente concentrada na região de Maputo, enquanto várias zonas rurais permanecem com cobertura financeira reduzida.
Os dados divulgados pelo Banco de Moçambique mostram uma transformação acelerada do sistema financeiro nacional. Entre 2021 e o segundo trimestre de 2026, o número de pontos de acesso passou de 80.243 para 532.761, representando um crescimento de cerca de 264%.
A principal força por detrás desta expansão são os agentes não bancários das Instituições de Moeda Electrónica, cujo número aumentou de 43.103, em 2021, para 494.955 no segundo trimestre deste ano. Actualmente, estes agentes representam aproximadamente 92,9% de todos os pontos de acesso financeiro existentes no país.
Maputo concentra quase 40% dos pontos de acesso
Apesar da expansão nacional, os números revelam uma forte concentração geográfica. A Cidade de Maputo lidera com 87.833 pontos de acesso, seguida pela Província de Maputo, com 74.168, e pela Cidade da Matola, com 43.005.
Somadas, estas três áreas concentram cerca de 38,5% de todos os pontos de acesso financeiro de Moçambique, evidenciando a enorme diferença entre a região metropolitana de Maputo e outras partes do país.
A realidade é particularmente diferente em alguns distritos do interior. Chigubo, por exemplo, possui apenas 148 pontos de acesso, enquanto Massangena conta com 228, Mabalane com 465 e Mágoè com 596.
A reduzida presença de agências bancárias e agentes financeiros nestas zonas demonstra que o crescimento nacional dos indicadores não significa necessariamente que todos os moçambicanos tenham o mesmo nível de acesso aos serviços financeiros.
Agentes de moeda electrónica substituem banca tradicional
A expansão das IME está a alterar profundamente a estrutura do sistema financeiro moçambicano. Em vários distritos, os agentes de moeda electrónica estão a assumir funções que anteriormente dependiam de agências bancárias e caixas automáticos.
Em Marracuene, os agentes IME passaram de 2.140 em 2025 para 10.473 no segundo trimestre de 2026. Em Boane, o número subiu de 1.353 para 8.316, enquanto Manhiça passou de 926 para 4.334.
Estes números mostram o potencial das plataformas de moeda electrónica para aproximar os serviços financeiros das populações, sobretudo em locais onde a instalação e manutenção de uma agência bancária tradicional pode ser mais dispendiosa.
Contudo, a expansão não é uniforme. Em Ibo, foram contabilizados apenas 33 agentes IME, enquanto Quissanga tinha 57 e Muidumbe 97.
Agências bancárias e ATM estão a diminuir
Enquanto os agentes de moeda electrónica registam uma expansão acelerada, alguns dos canais tradicionais apresentam uma tendência inversa.
O número de agências bancárias caiu de 679 no primeiro trimestre para 650 no segundo trimestre de 2026, uma redução de aproximadamente 4,3%.
As agências de microbancos e cooperativas de crédito também diminuíram, passando de 95 para 77 no mesmo período.
A redução mais expressiva verifica-se nos ATM, que passaram de 1.687 para 1.291. Também os terminais POS recuaram de 35.770 para 31.316.
A evolução sugere uma mudança gradual nos hábitos de utilização dos serviços financeiros, com maior recurso a plataformas móveis e agentes de moeda electrónica.
Nampula, Sofala e Zambézia também registam crescimento
Apesar das desigualdades, várias províncias apresentam uma expansão relevante dos pontos de acesso.
Nampula contabilizou 78.089 pontos, Sofala 59.563, Zambézia 47.490, Tete 36.764 e Manica 36.315.
Ainda assim, a dimensão territorial e populacional destas províncias significa que o número absoluto de pontos não é suficiente para garantir uma distribuição equilibrada. O desafio passa por assegurar que as comunidades mais afastadas dos centros urbanos também tenham acesso regular e confiável aos serviços financeiros.
As regiões de Niassa, Cabo Delgado e Zambézia continuam entre as que apresentam maiores desafios de cobertura quando considerados os rácios de pontos de acesso por distrito.
Inclusão digital traz novos desafios
A expansão da moeda electrónica representa uma oportunidade importante para aumentar a inclusão financeira em Moçambique, permitindo que cidadãos em zonas sem agências bancárias possam realizar operações financeiras através de agentes próximos das suas comunidades.
No entanto, a crescente dependência dos canais digitais também cria novos desafios.
Populações com menor literacia digital, incluindo parte da população idosa e comunidades com acesso limitado à internet, electricidade e equipamentos tecnológicos, podem ficar em desvantagem perante a rápida redução das infraestruturas financeiras tradicionais.
Por isso, a expansão dos agentes IME precisa de ser acompanhada por medidas que garantam a literacia financeira digital, segurança das transacções, qualidade dos serviços, interoperabilidade entre plataformas e cobertura das zonas mais remotas.
O desafio agora é garantir acesso para todos
Os números do segundo trimestre de 2026 mostram que Moçambique está a atravessar uma profunda transformação do seu sistema financeiro.
A existência de mais de meio milhão de pontos de acesso representa um marco importante para a inclusão financeira e demonstra a força adquirida pelos serviços de moeda electrónica.
Mas o desafio já não é apenas aumentar o número total de pontos. É garantir que esse crescimento seja geograficamente equilibrado, acessível, seguro e sustentável.
Enquanto Maputo concentra uma parcela significativa dos serviços financeiros, distritos como Chigubo, Ibo, Quissanga e Muidumbe continuam com cobertura limitada.
A próxima etapa da inclusão financeira em Moçambique deverá, por isso, passar da simples expansão quantitativa para uma estratégia centrada na redução das desigualdades regionais e na garantia de acesso efectivo aos serviços financeiros para todas as comunidades.