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Timbila transforma Quissico em palco de cultura, turismo e desenvolvimento económico

Quissico, no distrito de Zavala, em Inhambane, voltou a ser o centro da cultura chope com a realização da XXX edição do M’Saho – Festival de Timbila, que reuniu mestres, jovens, artistas, investigadores, turistas, estudantes, artesãos e comunidades locais numa celebração que foi muito além da música e da dança.

Reconhecida pela UNESCO, desde 2005, como Património Cultural Imaterial da Humanidade, a Timbila esteve no centro de uma programação que procurou aproximar diferentes gerações, valorizar os conhecimentos tradicionais e demonstrar que a cultura pode também constituir uma oportunidade de desenvolvimento económico para as comunidades de Zavala.

A edição deste ano recuperou o formato de três dias, uma decisão que, segundo Samuel Júnior, director provincial da Cultura e Turismo de Inhambane, pretende responder à necessidade de criar uma experiência turística mais abrangente e capaz de incentivar os visitantes, sobretudo estrangeiros, a permanecerem mais tempo no território.

Centro de Interpretação coloca a preservação no centro do festival

A programação arrancou no Centro de Interpretação de Timbila, no povoado de Guilundo, espaço criado para apresentar aos visitantes a história, a construção, a música e a dança da Timbila.

O local está igualmente associado à memória do Mestre Venâncio Mbande, uma das figuras de referência da tradição ‘timbileira’ em Zavala.

Mais do que preservar a memória, o centro procura criar condições para que os conhecimentos tradicionais continuem a ser transmitidos às novas gerações. Uma das preocupações é a reprodução do mwendje, matéria-prima fundamental para a construção das timbilas e cuja escassez ameaça a continuidade da produção dos instrumentos.

Foi neste espaço que o M’Saho iniciou a sua XXX edição, recebendo grupos de Timbila, investigadores, estudantes e visitantes.

Oficinas mostram como se constrói e toca uma Timbila

O primeiro dia foi dedicado a uma verdadeira imersão na cultura chope.

Os participantes tiveram acesso a oficinas de construção e reparação de timbilas, orientadas por mestres artesãos locais. A actividade permitiu compreender que o instrumento é resultado de um conjunto de conhecimentos que começa na natureza, passa pela selecção e preparação da madeira e termina na afinação.

Também foram realizadas oficinas de música e dança, mostrando a ligação inseparável entre o som produzido pelas timbilas e os movimentos dos bailarinos.

Para os turistas, a experiência permitiu ultrapassar a posição de simples espectadores. Alguns tiveram a oportunidade de aprender a construir, tocar e dançar, numa experiência que procurou transformar o turismo cultural numa actividade participativa.

Samuel Júnior defendeu que os visitantes procuram actualmente mais do que alojamento e alimentação. A experiência cultural, o contacto com as comunidades e a possibilidade de aprender constituem elementos importantes para tornar um destino turístico mais atractivo.

Jovens são fundamentais para garantir a sobrevivência da Timbila

Um dos principais desafios identificados durante o festival é a transmissão dos conhecimentos entre gerações.

O músico e investigador Venâncio Mbande Júnior explicou que a sua ligação à Timbila nasceu no ambiente familiar, através do contacto com mestres desde a infância. Segundo a perspectiva apresentada, muitos jovens actualmente envolvidos nas orquestras tradicionais possuem igualmente vínculos familiares ou de proximidade com os mestres.

Esta realidade levanta preocupações sobre os jovens que crescem fora desses círculos, uma vez que podem não desenvolver a mesma ligação com a tradição.

O caso do grupo Timbila de Muane demonstra as dificuldades existentes. Alberto Celina, ligado ao grupo há mais de duas décadas, conta que a formação chegou a reunir 45 artistas depois de ter sido reconstruída a partir de antigos praticantes e jovens recrutados numa escola.

Actualmente, porém, o grupo conta com cerca de 22 artistas, depois de muitos jovens terem deixado a comunidade para prosseguir os estudos ou procurar emprego em Maputo, Eswatini e Durban, na África do Sul.

M’Saho ajuda a manter os grupos em actividade

Apesar das dificuldades, o festival desempenha um papel importante na preservação das orquestras.

A aproximação do M’Saho obriga os grupos a retomarem os ensaios, recuperarem repertórios e prepararem coreografias para a competição. Em muitas comunidades, os domingos voltam a ser dias de ensaio nos meses que antecedem o festival.

Assim, a competição acaba por produzir um efeito de preservação, mantendo os grupos activos e criando uma meta concreta para os praticantes.

Timbila pode transformar-se numa oportunidade económica

A discussão sobre o futuro da Timbila ultrapassou também a dimensão cultural e entrou no campo das indústrias culturais e criativas.

Venâncio Mbande Júnior considera que é possível gerar rendimento através da Timbila, embora reconheça que existem dificuldades logísticas para transportar uma orquestra tradicional para outros mercados, devido ao número elevado de integrantes e aos custos de transporte, alojamento e alimentação.

Uma das possibilidades passa pela coexistência entre a Timbila tradicional e formas contemporâneas de utilização da sua linguagem.

A Timbila contemporânea poderá facilitar a circulação de projectos musicais mais pequenos, enquanto as orquestras tradicionais continuam a preservar a forma original da manifestação.

A própria produção dos instrumentos pode constituir outro segmento económico, através da venda de timbilas, instrumentos musicais, lembranças e outros produtos culturais.

Mwendje: a matéria-prima que ameaça o futuro dos instrumentos

Por detrás da música existe ainda uma preocupação ambiental.

O mwendje, utilizado na construção das timbilas, está cada vez mais escasso. Para responder a este problema, o Centro de Interpretação criou uma estufa destinada à produção de mudas que posteriormente podem ser replantadas e distribuídas por produtores e escolas.

A iniciativa demonstra que preservar a Timbila implica também proteger os recursos naturais que permitem a sua existência.

A escassez da matéria-prima deixa, portanto, de ser apenas uma questão ambiental e transforma-se numa ameaça cultural, já que a ausência das árvores necessárias para a construção dos instrumentos pode comprometer a própria continuidade da tradição.

Timbila chega às escolas de Zavala

O segundo dia foi dedicado sobretudo às escolas, numa tentativa de aproximar os estudantes da manifestação cultural que faz parte do território onde vivem.

A Orquestra M’kwayo, composta por 35 dos melhores timbileiros provenientes de diferentes orquestras do distrito, realizou um ensaio público.

Posteriormente, palestras e workshops em duas escolas secundárias permitiram aos estudantes conhecer mais de perto a Timbila e os seus elementos musicais e culturais.

A presença de investigadores e estudantes envolvidos na produção de um documentário sobre a dança da Timbila acrescentou ao programa uma componente documental, importante num contexto em que muitos conhecimentos permanecem concentrados nas gerações mais velhas.

Festival procura internacionalizar a Timbila

A XXX edição contou também com artistas provenientes da Itália e dos Países Baixos, reforçando a dimensão internacional do M’Saho.

Para Samuel Júnior, o intercâmbio poderá abrir caminho para futuras participações de grupos moçambicanos de Timbila em festivais realizados nesses países.

A internacionalização é vista como uma possível forma de criar novas oportunidades profissionais para os artistas e, sobretudo, de mostrar aos jovens que o conhecimento da Timbila pode representar uma oportunidade de trabalho e rendimento.

Mais de 45 mil pessoas participaram na grande festa

O terceiro dia levou a grande celebração para o Aeródromo de Quissico, onde estiveram 21 grupos e 355 artistas.

A programação incluiu 12 grupos de Timbila, cinco grupos de outros ritmos tradicionais e quatro formações de música ligeira, além da participação da Timbila Groove, que combina elementos da tradição com instrumentos contemporâneos.

A festa reuniu artistas, famílias, turistas, comerciantes e espectadores, mantendo a Timbila como elemento central, mas permitindo igualmente o diálogo com outras expressões musicais.

Segundo o texto, mais de 45 mil pessoas participaram na celebração, num movimento que levou ao esgotamento dos alojamentos em Quissico e obrigou visitantes a procurar hospedagem em localidades próximas.

Entre os grupos presentes estiveram formações escolares e comunitárias como Timbila da Escola Secundária Graça Machel, Timbila da Escola Básica de Quissico, Timbila da Escola Secundária de Helene, Ngalanga Vungane, Timbila Nhagutou, Timbila de Mauaie, Timbila de Banguza, Timbila de Muane, Vavasikate Va Timbila, Timbila de Guilundo, Timbila de Chizoho e Timbila de Mazivela, além da Timbila Groove, Orquestra M’kwayo, FDD, Two-El e Classic Nova.

Top Produções reforça profissionalização do festival

A dimensão alcançada pelo M’Saho também aumentou as exigências de produção.

A participação da Top Produções foi apontada por Venâncio Mbande Júnior como um factor que contribuiu para a evolução organizacional do evento, ao permitir maior capacidade de mobilização de recursos, produção técnica e organização.

Entretanto, o crescimento do festival traz novos desafios.

Um deles está relacionado com a própria estrutura do palco, que, segundo Júnior, poderá estar mais adaptada a espectáculos de música ligeira do que às características específicas da Timbila, onde a dança desempenha um papel tão importante quanto a música.

A disposição dos músicos e bailarinos e a visibilidade das coreografias são elementos fundamentais para que o público compreenda a manifestação cultural.

M’Saho quer transformar cultura em turismo durante todo o ano

A recuperação do formato de três dias demonstra uma mudança na forma de pensar o festival.

O M’Saho procura afirmar-se como uma plataforma de desenvolvimento cultural e turístico, permitindo que os visitantes conheçam não apenas a Timbila, mas também outros atractivos de Zavala.

Entre as actividades estiveram passeios pela Lagoa de Quissico, roteiros da Timbila, gastronomia local e iniciativas promovidas por produtores de eventos e guias turísticos.

A lógica é simples: quanto mais tempo o visitante permanecer no território, maior será a possibilidade de beneficiar diferentes sectores da economia local.

Artesãos, vendedores, cozinheiros, proprietários de alojamentos, transportadores, guias e artistas podem encontrar oportunidades de rendimento associadas ao aumento do fluxo turístico.

O desafio é manter o impacto depois do festival

O grande desafio colocado pela XXX edição do M’Saho é garantir que o impacto económico e cultural não termine quando as últimas pessoas abandonarem o Aeródromo de Quissico.

A sustentabilidade passa por transformar a dinâmica criada pelo festival numa actividade permanente.

Os grupos precisam de continuar a ensaiar, os artesãos precisam de produzir instrumentos, as escolas podem manter actividades de aprendizagem, os guias podem desenvolver roteiros turísticos, os alojamentos e restaurantes podem continuar a receber visitantes e o Centro de Interpretação de Timbila pode funcionar como uma porta de entrada permanente para quem pretende conhecer a cultura de Zavala.

Três décadas depois do nascimento do M’Saho, a Timbila continua a ser o coração da festa, mas o futuro do festival parece depender da capacidade de transformar esse património em conhecimento, oportunidade, emprego, turismo e rendimento para as comunidades que mantêm viva esta tradição.