As cheias severas que atingem o sul e o centro de Moçambique desde o início do ano já provocaram o deslocamento de cerca de 392 mil pessoas, agravando uma situação humanitária marcada pela sobreposição de crises climáticas e de segurança.Segundo a oficial de comunicação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Moçambique, Isadora Zoni, o país enfrenta um quadro de crise prolongada. “Moçambique, infelizmente, está a tornar-se num país em crise”, afirmou.
As províncias de Gaza e Maputo, bem como várias regiões do sul e centro do país, estão entre as mais afectadas. A rápida subida do nível das águas deixou pouco tempo para a retirada das populações, forçando milhares de famílias a fugir, muitas delas sem documentos e sem bens essenciais.
Dados do ACNUR indicam que cerca de 100 mil pessoas se encontram actualmente distribuídas por cerca de uma centena de centros de acolhimento temporário, a maioria instalada em escolas e edifícios públicos. A sobrelotação destes espaços tem vindo a agravar os riscos de protecção.
“Falamos de escolas, de espaços que não são próprios para receber essa população. Infelizmente, os riscos apresentam-se mais agravados, especialmente quando vemos pessoas a partilhar salas de aula”, explicou Isadora Zoni, citada pela Rádio França Internacional (RFI).
A falta de privacidade, de iluminação adequada e de serviços básicos aumenta a exposição a situações de violência baseada no género, exploração sexual e abusos. “Quando temos 55 mulheres juntas, sem contar as outras salas, os riscos de violência sexual, de violência doméstica e de exploração são, de facto, agravados”, alertou.
O ACNUR trabalha em coordenação com o Governo moçambicano na identificação das pessoas em situação de maior vulnerabilidade, com vista ao seu encaminhamento para serviços adequados. “A nossa prioridade é trabalhar na identificação dessas populações para que possamos dar o tipo de assistência necessária”, explicou a responsável. Entre os grupos prioritários estão crianças desacompanhadas, pessoas com doenças crónicas, idosos e pessoas com deficiência.
Esta nova vaga de deslocações ocorre num contexto já marcado pelo conflito armado no norte do país, que provocou mais de 300 mil novos deslocados apenas na segunda metade de 2025. Para o ACNUR, a conjugação de crises está a exercer uma pressão crescente sobre serviços públicos já fragilizados.
“Nos últimos seis meses, vimos o deslocamento de cerca de 700 mil pessoas. Este número representa um acréscimo significativo de pressão sobre os serviços públicos”, sublinhou Isadora Zoni.
Para o ACNUR, a actual situação evidencia a elevada vulnerabilidade estrutural de Moçambique face às alterações climáticas. Embora reconheça avanços na resposta e na preparação ao nível comunitário, a organização defende o reforço do investimento na prevenção.
“O investimento na prevenção salva vidas e também recursos”, frisou Zoni, acrescentando que se trata de “um trabalho de formiguinha” que exige continuidade e apoio a longo prazo.
A resposta humanitária enfrenta, contudo, sérias limitações financeiras. “Um tema que não podemos evitar é que precisamos sempre de recursos”, afirmou, alertando para o risco de diminuição da atenção pública após a fase inicial da emergência. “A fase das cheias é apenas a primeira fase, e é fundamental manter a atenção do público e dos doadores no médio e longo prazo.”
Em 2026, o ACNUR estima necessitar de 38,2 milhões de dólares para assegurar serviços vitais de protecção e apoio a refugiados, deslocados internos e comunidades de acolhimento em Moçambique.
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