O que era apresentado como uma solução estratégica para revitalizar as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) transformou-se num novo problema técnico, financeiro e diplomático para a companhia estatal. As duas aeronaves Embraer 190, adquiridas em Dezembro de 2025 por cerca de 25 milhões de dólares, continuam sem entrar em operação comercial devido a restrições impostas pela fabricante brasileira Embraer.
Segundo uma investigação divulgada pelo jornal Canal de Moçambique, a origem do problema remonta ao chamado “Caso Embraer”, um escândalo de corrupção internacional que envolveu a compra de aeronaves pela LAM em 2008 e que resultou em acusações de suborno, culminando na condenação de figuras moçambicanas como o ex-ministro dos Transportes e Comunicações, Paulo Zucula, e o antigo gestor Mateus Zimba.
De acordo com a publicação, os efeitos reputacionais do caso levaram a Embraer a romper relações directas com a companhia aérea moçambicana, colocando a LAM numa espécie de “lista negra” informal, que impede o fornecimento de peças sobressalentes e o acesso ao sistema oficial de assistência técnica da fabricante.
Embora os dois aviões tenham sido adquiridos no mercado secundário, através da companhia holandesa KLM, a LAM enfrenta sérias limitações operacionais. A empresa não possui o stock mínimo recomendado de peças de reposição para garantir a manutenção regular das aeronaves, e a recusa da Embraer em vender componentes ou integrar a companhia no seu “pool” técnico dificulta ainda mais a entrada em funcionamento pleno dos aparelhos.
A situação obrigou a actual administração da LAM, liderada pelo gestor sérvio Dane Kondic, a avançar com contactos diplomáticos de alto nível numa tentativa de desbloquear o impasse. As negociações envolvem o vice-presidente da Embraer, João Taborda, numa estratégia que visa demonstrar que a companhia moçambicana reúne actualmente condições de credibilidade e transparência suficientes para restabelecer relações comerciais com a fabricante brasileira.
Entretanto, as aeronaves foram enviadas para Joanesburgo, na África do Sul. Oficialmente, os aviões estão a ser submetidos à pintura com as cores da LAM, mas fontes indicam que a deslocação também procura encontrar alternativas técnicas e logísticas que permitam ultrapassar o bloqueio operacional enfrentado em Moçambique.
O caso surge numa altura particularmente sensível para a transportadora aérea nacional, sobretudo porque o reforço da frota havia sido anunciado publicamente pelo Presidente da República, Daniel Chapo, como parte dos esforços para recuperar a capacidade operacional da empresa. Contudo, apesar do investimento milionário e da expectativa criada em torno da aquisição, os aparelhos permanecem sem operar regularmente devido à ausência de componentes básicos e ao impasse com a Embraer.
A situação levanta novas dúvidas sobre a sustentabilidade da LAM e evidencia como escândalos do passado continuam a produzir impactos profundos nas instituições públicas moçambicanas, afectando não apenas a reputação internacional do país, mas também a operacionalidade de sectores estratégicos como a aviação civil.

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