Director do CDD acusa Governo de inverter prioridades e questiona a actuação do FMI

Maputo – O Director do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD)Professor Adriano Nuvunga, dirigiu neste sábado, 4 de Abril de 2026, uma carta aberta ao Representante Residente do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Moçambique, criticando a recente decisão do Governo de desembolsar 701 milhões de dólares à instituição financeira internacional, numa altura em que o país enfrenta uma grave crise de divisas e crescente pressão social.

Na missiva, Nuvunga considera que o pagamento, efectuado num contexto em que empresas nacionais enfrentam dificuldades para importar bens essenciais e os funcionários públicos lidam com atrasos salariais, ultrapassa a dimensão técnica da gestão da dívida pública.

Para o académico e activista, a medida representa uma ofensiva contra quem vive a dura realidade do país, sublinhando que o mercado nacional se encontra sob forte pressão devido à escassez de dólares, o que limita operações comerciais, encarece produtos e aprofunda a desaceleração económica.

Segundo Nuvunga, ao retirar recursos vitais da economia interna para honrar compromissos externos, o Estado compromete a capacidade de resposta dos serviços públicos, numa altura em que sectores como saúde, educação e administração pública já enfrentam sinais evidentes de degradação.

“Trata-se de uma inversão total de prioridades”, sustenta o director do CDD, defendendo que os moçambicanos continuam a suportar os custos de dívidas geradas por elites políticas, agora transferidos para o cidadão comum através de austeridade, desemprego e falta de oportunidades.

Críticas à actuação do FMI

A carta aberta levanta igualmente questões sobre o papel do FMI no acompanhamento da política económica do país. Nuvunga questiona de forma directa onde esteve a instituição durante o processo de decisão e sugere que, caso o Fundo tenha apoiado o pagamento em plena crise cambial, a sua supervisão em Moçambique perde credibilidade e relevância.

O activista destaca que a asfixia económica é real, com o mercado interno a operar sob fortes constrangimentos devido à falta de moeda estrangeira, situação que afecta desde importadores até consumidores finais.

Além disso, argumenta que o impacto social da decisão é imediato, uma vez que a saída de divisas reduz a margem do Estado para assegurar salários, programas sociais, investimento público e estímulos à actividade económica.

Num dos trechos mais incisivos da carta, Nuvunga defende que o FMI não necessita destes recursos com a mesma urgência que Moçambique, afirmando que o dinheiro ficará numa conta em Washington, enquanto o país enfrenta uma verdadeira emergência financeira e social.

Debate sobre disciplina fiscal e justiça económica

A reacção do director do CDD surge num momento em que o Ministério das Finanças tem insistido na necessidade de disciplina fiscal e cumprimento das obrigações externas, procurando preservar a imagem do país junto dos credores internacionais.

No entanto, sectores da sociedade civil e analistas económicos têm vindo a classificar este tipo de decisões como uma forma de injustiça económica, argumentando que os custos do ajustamento continuam a recair sobre a população, num cenário de inflação, desemprego e perda do poder de compra.

Até ao fecho desta edição, a representação do FMI em Maputo ainda não se tinha pronunciado sobre o conteúdo da carta aberta.

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